Os dias com uma linda coruja que me escolheu para conduzir sua jornada à morte.

Atualizado: Jan 15



Como uma magia que se manifesta, na experiência mais profunda da minha vida com a Natureza e as essências da Morte, uma linda corujinha fez sua passagem deste plano físico acolhida em meu colo, com carinhos e ao som de flauta, que tentava tocar com lágrimas nos olhos. Um misto de amor, honra e uma tristeza inevitável dos laços de compaixão e carinho intensos que se formaram em meu coração nos dois dias desde a sua aparição, até sua passagem. Uma experiência que guardarei para sempre em meu espírito, minha mente e em meu coração, e busco compartilhar de modo a eternizar os detalhes desta memória e inspirar amor no coração de quem se propor a ler. Era domingo (21), 8h da manhã, quando acordei e, junto com meu filho Cauê de 3 anos, nos deparamos, no meio de minha sala, com uma coruja, que parecia ferida e conseguia abrir apenas um de seus grandes e lindos olhos amarelos.

Tentei entender o que acontecia…”Como ela entrou e veio parar aqui embaixo, se havia apenas uma pequena fresta aberta na janela do andar de cima?”, outro pensamento inevitável foi “Como ela sobreviveu por horas com meus dois gatos (super caçadores de pássaros) no mesmo ambiente?” Mas, enfim, por mais inacreditável que fosse, lá estava ela. Imponente, porém frágil e abatida me olhando com um único e grande olho amarelo. Minha primeira reação foi querer abrir a porta para ela sair de casa, e ao tentar chegar perto para abrir a porta, os gatos se aproximaram com interesses ameaçadores e provocaram reação de defesa, foi onde abriu suas asas revelando com toda plenitude a sua mensagem de poder e força, como a maior ave caçadora da noite.

Após fechar os gatos no quarto, retornei e pude interpretar com mais calma toda situação, especialmente a expressão da Coruja. Algo que jamais esquecerei, um olhar tão profundo em um misto de medo, apreensão, mas um certo “convite” para eu me aproximar. Essa percepção me surpreendeu e me fez sentir encorajado a tentar uma aproximação. Com calma e movimentos lentos fui chegando perto…quando toquei em suas plumas e olhei em seu olho, uma forte percepção atravessou minha alma de uma forma que simplesmente não tenho palavras para descrever. Era como se uma voz interior dissesse “ela veio se entregar a você, para encaminhar a sua morte em paz”, mas de maneira muito profunda e complexa para aqueles poucos segundos.

Toda essa energia se somou ao gesto em resposta da pequena Coruja ao meu toque. Com tranquilidade seus olhos começaram a se fechar lentamente enquanto meus dedos começavam a acariciar a sua cabeça, como em um ninar de bebê. Pude sentir o cansaço de uma baixa vitalidade que apenas os anos de vida trazem. Era uma “corujinha vovó”, como sempre dizia o Cauê.

Após este contato inicial de muita intensidade, pensei em formas de a colocar em contato com a Natureza, afinal é o habitat original de sua vida. Fique confiante nesta ideia porque não havia nenhum ferimento nas asas, nem sangues aparentes e até mesmo o olho sempre fechado estava bem cicatrizado, demonstrando ter acontecido há tempos. Ela se adaptou a viver com o desafio de ter apenas um olho. Parecia uma coruja apenas cansada com ferimentos leves não aparentes.

Levei ao jardim e tentei estimular o voo para ver sua capacidade. Mas após duas tentativas frustradas onde quase ela se feriu gravemente em quedas desgovernadas, percebi que ela não podia mais voar. Reparei também que sua cabeça se movimentava levemente para os lados de forma repetitiva e involuntária, atestando algum problema no sistema nervoso. Sem voo, sem olho, sem capacidades neurológicas sadias, sem energia para movimentações. Ela só tinha a mim. Nesta hora tive a certeza que todo sentimento inicial era verdadeiro e que o único caminho a seguir seria o acolhimento amoroso deste lindo ser da Natureza…As lágrimas nasciam enquanto a mente e o coração constatava a profundidade da missão e da jornada de encaminhar a passagem do plano físico deste lindo e magnífico animal de poder. Sentimentos de honra, responsabilidade e gratidão fizeram morada em meu coração durante todos os momentos ao seu lado.

Seguindo também os “protocolos” da mente, entrei em contato com colegas veterinários e um amigo-irmão, mestre no estudo das aves (ornitologia) em aves para transmitir e colher informações e sobre como poderia eu poderia acolher e ajudar. Descobri que se tratava de uma coruja fêmea idosa de nome Megascops choliba, conhecida como “corujinha-do-mato”, muito comum na nossa região. Uma linda vovó coruja caolha. Após observar que a excreção também estava sem sangue, constatamos que não havia nenhum ferimento interno grave. O consenso foi de que a corujinha idosa estava no caminho da morte mais abençoada que existe, na tranquilidade de um sono. Descobri também que esta espécie dorme durante o dia em galhos de árvores, desta forma, tentando ainda oferecer alguma experiência em meio a natureza, escalei minha árvore de amoras e coloquei ela em um dos galhos. Mas após algum tempo, percebi que ela ficava com o olho atento, mas com muitos sinais de cansaço, como se estivesse tentando dormir, mas apreensiva por ter que ficar acordada. Decidi retirar da árvore. Assim que a segurei na mão, novamente a mesma reação de tranquilamente ir fechando os olhos, como se estivesse aliviada e sentindo-se segura.

Tentei dar alimento, até peguei algumas minhocas e ofereci em seu bico para comer, mas ela nunca quis se alimentar. Foi assim até o fim. Eu oferecendo, e ela simplesmente ignorando, sem nenhuma vontade ou reação. Apenas água que conseguia dar em um potinho em seu bico, mas mesmo assim com pouquíssima reação e energia. Constatei que realmente era apenas questão de tempo, e não havia nada que pudesse fazer além de acolher. Lembrei também de um ensinamento que aprendi com Chico Xavier em uma de suas declarações ao programa “Pinga Fogo”, onde ele explica que os animais idosos ou doentes, quando param de demonstrar interesse ou vontade de se alimentar, é uma demonstração do animal de que sua jornada de vida se concluiu e a morte foi aceita como caminho inevitável

Ao estabilizar em mim esse fato de que seria como um guardião de seus últimos momentos até a sua morte, procurei oferecer o máximo de carinho, tranquilidade e segurança a este lindo animal que, de alguma forma, me escolheu para essa missão. Fiquei próximo durante todo tempo, inclusive nas noites, em que dormia no chão ao meu lado, acomodada em uma espécie de ninho que preparei em um vaso de samambaia colocando folhas e pequenos galhos. Mesmo no período noturno de sua máxima atividade, a corujinha continuava cansada e apenas descansava, as vezes, abrindo totalmente os olhos e ficando observando por algum tempo.

Neste período, por sentir todo significado espiritual da experiência, procurei mergulhar em meu interior, em meditações e reflexões profundas sobre a sabedoria por trás de todo esse acontecimento. Levarei para sempre os ensinamentos interiores e as conexões que senti com este lindo animal, que me levou a expandir minha consciência para uma compreensão mais ampla sobre a sabedoria da Natureza, em seus animais e fluxos de vida, e da Morte, em seus dons e belezas ocultas.

Naquela manhã de domingo quando começou, pensei que levaria algumas poucas horas, mas toda experiência durou 52 horas, até as 12h22 de terça-feira (23), horário exato da manifestação da morte física. Até o momento final seu olho entreaberto demonstrava um movimento de abre e fecha da pupila, como uma respiração final com os olhos enquanto seu corpo manifestava com movimentos tranquilos os colapsos finais do corpo. Ao encerrar sua vida, o outro olho sempre fechado finalmente se abriu em outro lindo olho amarelo. Neste gesto final, demonstrando mais uma sabedoria da morte, que é como o abrir de olhos em outro plano. Com a morte os olhos se abrem, e não se fecham. A transformação contínua de planos de realidades.

Durante os momentos finais de despedida da “Corujinha vovó”, o Cauê estava por perto. Já vinha preparando ele desde o início dizendo que a corujinha vovó ia se despedir, pois estava muito cansada e logo iria se transformar em uma linda estrela no céu. Ele veio, sentou ao lado, conversou, quis cantar músicas e algo muito simbólico aconteceu. Bem no momento que a corujinha tinha acabado de partir ele veio trazendo duas florzinhas amarelas e colocou em cima dela. Em seguida, ele molhou as mãos no laguinho que temos no jardim e veio passar a mão em cima da corujinha enquanto falava “ahh agora está ótimo corujinha vovó. Você vai ficar bem linda e limpinha”.

E foi assim que se findou essas intensas horas que levarei para sempre. Um dia, se assim for, seremos como essa linda corujinha que se entregará para uma morte em paz. Que possamos ser acolhidos com amor neste profundo momento de entrega e compaixão de mais um ciclo que se renova na infinita jornada da vida.

——– Do fundo de meu coração, eu peço que todas as pessoas que chegarem até este momento do texto, que possam reservar poucos momentos do seu dia para sentir o imenso amor e carinho que a Natureza nos demonstram e nos envia todos os dias. Envie conscientemente amor e carinho para a Natureza. Se tiver, abrace com amor seu cachorrinho, gato ou algum outro animal de estimação que tenha em casa e, olhando no fundo de seus olhos, e envie este amor a ele e também para todos os seres da Natureza. Agradeça pelo ar, pelas águas, pelas plantas, frutas, pelos sons e pelas cores que compõem toda exuberância da vida deste nosso magnífico planeta, carinhosamente, nossa linda Gaia.

A conexão verdadeira e sincera em pensamentos e sentimentos de paz e amor com a vida que nos cerca é a verdadeira religião que pode nos ensinar sobre a sabedoria divina que existe em cada detalhe de nossa existência e nos indicar caminhos a seguir em nossa própria jornada de evolução.

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Fabiano Porto

Jornalista cofundador do Instituto Regeneração Global e movido a compartilhar as evidências da transição planetária e a nova consciência de regeneração.

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